Estória: narrativa de lendas, contos tradicionais de ficção.

História: narração ordenada, escrita dos acontecimentos e actividades humanas ocorridas no passado.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A Vaca das Cordas: véspera da Procissão do Corpo de Deus


Este velho costume da introdução da «Vaca das Cordas» (Ponte de Lima) na véspera da procissão do Corpus Christi, filia-se nos cultos egípcios de Isis, Osíris e Apis, trazidos para a Peninsula pelos fenícios, aceites pelos romanos e suevos e tolerados pelos cristãos (como o Boi Bento e a Serpe de Lerna).

É que no Olimpo, os Deuses também se apaixonavam! Segundo a mitologia, Io, filha do rei Inaco e de Ismene, linda como os amores, foi raptada por Júpiter. Juno, irmã e mulher deste, não esteve pelos ajustes e daí a sua perseguição a Io. Júpiter como qualquer mortal, temendo a mulher, metamorfoseou a apaixonada em vaca mas Juno, que lia os pensamentos do sublime adúltero, mandou do céu à terra um moscardo ciumento, incumbido de aferroar, incessantemente, a infeliz Io.

Assim, perseguida, Io fugiu para o Egipto onde Júpiter vendo-a tão desconsolada (diz a lenda que a bela vaca chorava rios de lágrimas, que juntas formariam o Nilo (!), a restituiu à forma natural, fez-lhe um filho (Epafo) e casou-se com Osiris, também adorado com o nome de Ápis. Os egípcios levantaram altares a Io debaixo do nome de Isis e exibiram nas solenidades, como seu símbolo, uma vaca errante, corrida. Ora, Isis, a vaca de Júpiter, a deusa da fecundidade teve um culto especial, precisamente, na Região Galaico-Bracária na área de Entre Douro e Minho, no Convento Bracaraugustano, concretamente, numa dependência administrativa judicial do distrito dos Límicos!



Vai ser ainda o Padre Roberto Maciel (in Almanaque Ilustrado de «O Comércio do Lima» 1908), quem nos vai ajudar a explicar a tradição da «vaca das cordas». Diz-nos o Revº Abade : A igreja Matriz da primitiva vila era um templo pagão dedicado a uma deusa, que, converteram em templo cristão a igreja, tiraram do nicho a imagem da deusa vaca, prenderam-na com cordas, com ela deram três voltas à igreja e depois arrastaram-na pelas ruas da vila, com aprazimento de todos os habitantes. Daí o tradicional costume da «vaca das cordas» pelas ruas, para gáudio do rapazio e até dos mais velhos, com tanto que se pilhem seguros bem longe da rede que os da corda costumam lançar-lhes.


Transcrito e foto de: RTAM

quinta-feira, 3 de maio de 2007

A Mal Degolada

Em tempos muito antigos viveram nas margens do rio Lima, perto da vila de Ponte de Lima algumas famílias de mouros. Eles teimavam em lá continuar.


Uma jovem moura muito bonita, apaixonou-se por um jovem cristão. Então começaram a namorar em segredo, porque eles não tinham a mesma religião. As famílias não aceitavam tal namoro.


Um dia, foram dizer ao cristão apaixonado, que ela ia namorar todas as noites com outro homem, para junto da fonte. O rapaz não queria acreditar, mas ficou desconfiado.


Assim, armado de um comprido punhal foi espreitá-la junto à fonte, mas escondido.


Verificou que era verdade o que lhe tinham dito. Ficou cheio de ódio e quis vingar-se. De um salto, enterrou o afiado punhal no pescoço da moça, repetidas vezes.


De repente, ouviu-se a voz de um velho e ele parou:


- Desgraçado, o que fizeste ?! Acabas de matar a moça que por amor a ti, aprendeu o catecismo. Acabei agora mesmo de a baptizar, como cristã.


O velho que falou, era um santo frade do convento. Ali vinha todas as noites, para a família dos mouros não desconfiar.


Isto aconteceu onde hoje é a freguesia de Bertiandos. O povo chama à fonte, a "Fonte da Moura" que fica na quinta de Bertiandos. Há também uma rua vizinha chamada a Rua da Fonte.


Transcrito de: Ponte de Lima

quinta-feira, 19 de abril de 2007

A Lenda do Rio Lima

Comandadas por Décios Junos Brutos, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 aC. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse, os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, empunhando o estandarte das águias de Roma o comandante chamou da outra margem a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do esquecimento.

Tapeçaria de Almada Negreiros existente no Hotel de Santa Luzia em Viana do Castelo
Foto: http://www.pontedelima.com/lethes.htm

Com relação ao rio Lima, história e lenda encontram-se tão interligadas que nem sempre é fácil delimitar onde acaba uma e começa outra.

Foi sempre a beleza do rio a provocar encómios e o sentimento de incapacidade duma expressão condigna a atrair o poder sugestivo da lenda. Vem dos velhos tempos o processo.

Estrabão designou-o por Beliom e relata ter ocorrido nas suas margens um episódio militar entre Túrdulos e Célticos.

Iam já a atravessá-lo quando surgiu entre os dois povos uma discórdia.

Lutaram e foi o sangue do próprio comandante que se juntou ao de muitos outros a macular a brancura das águas.

Desorientados ficaram os soldados e, sem comando, se dispersaram pelas margens, em luta pela sobrevivência.

Lucano chamou-lhe o "Deus do Tacitus", em virtude da mansidão com que corriam as suas águas.

Tito Lívio denominou-o "Rio do Esquecimento" (Oblivionis fluvis ou flumen).

Surgiu, então, a sua identificação como Lethes da mitologia, que tinha o condão de provocar em todos os que o transpusessem o olvido do passado e da própria pátria.

Campos Elísios passaram, em consequência, a apelidar-se os que circundavam, isto é, as suas margens.

Mais semelhantes a jardins, no conceito mitológico; onde, segundo o testemunho de Políbio, só durante três meses do ano as rosas não floriam.

E ainda Estrabão que nos diz ser esta a terra perfeita por qualquer fugitivo de Roma.

Dentro deste condicionalismo, aqui chegaram um dia, sob o comando de Décios Junos Brutos, as legiões romanas, com as altivas águias a tremularem nos pendões.

Vitoriosas haviam pisado as terras que estavam para sul e propunham-se prosseguir.

Desciam, a justante, dos lados de Ponte de Lima e teriam iniciado a jornada desse dia em Vitorino das Donas:

"Daqui saiu Bruto pelos campos tão celebrados com o nome de Elysios a procurar lugar em que com o se exército pudesse vadear as cristalinas águas do Lethes tão respeitadas com a fabula virtude de encantadoras." (João de Barros, Antiguidades de Entre Douro e Minho).

Encontravam-se no lugar da Passagem e fácil pareceu ao comandante a travessia.

Nesse sentido emitiu ordens, mas encarniçada se revelou a resistência dos soldados, conhecedores como eram dos poderes sortílegos atribuídos às suas águas.

Não perdeu ele a serenidade nem achou conveniente procurar convencê-los por meio de palavras.

Tomou a bandeira, ergueu-a ao alto, transpôs o vau e, já da outra margem, a muitos chamou pelo nome e incitou a seguirem-lhe o exemplo.

Por esse meio os convenceu de que, afinal, não era verdade o que a lenda propalava.

Assim exaltado nos advém, das mais longínquas eras, o fascínio deste rio que até aos nossos dias tem sido cantado por todos quantos puderam contemplá-lo.

Transcrito de: Conde de Bertiandos, in Lendas, 1898.